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NAVEGAÇÕES MOÇÁRABES

Amuleto norte-africano encontrado na Ilha de São Miguel, por baixo de uma camada de lava. Datado de entre o século VII ao IX d.C.

 

A AVENTURA DOS OITO MOÇÁRABES NA ILHA DOS CARNEIROS

Referida pelo geógrafo Arabe El Idrisi, no século XI, na sua "Descrição da África e da Hispania" : "De Lisboa partiu a expedição dos aventureiros, que tinham por missão descobrir os segredos e os limites do oceano... Depois de onze dias de navegação, chegaram a um mar, cujas espessas águas exalavam um cheiro fétido... Em seguida navegaram para Sul durante doze dias e chegaram à Ilha dos Carneiros, de carne amarga e incomível. Continuando para sul durante mais doze dias, aportaram a uma grande cidade onde viram homens nus, de alta estatura, com a pele vermelha, o corpo coberto de pelos e com cabelos lisos e compridos. As mulheres eram extremamente belas."

"Durante três dias foram guardados prisioneiros numa casa, mas no quarto chegou um homem que falava a língua árabe, que lhes perguntou quem eram, de onde tinham vindo e o que pretendiam. Contaram-lhe as suas aventuras e ele prometeu-lhes uma viagem em segurança e disse-lhes que ele era o intérprete do rei."

"No segundo dia, foram apresentados ao rei, que lhes perguntou o mesmo que o intérprete e responderam-lhe que lhes assaltou o grande desejo de saber o que existiria para além do mar e tendo ouvido tantas histórias tão maravilhosas tiveram o desejo de chegar às praias mais remotas."

"E quando o rei se apercebeu disso riu-se e ordenou ao intérprete de dizer aos homens que seu pai tinha ordenado a alguns dos seus vassalos a fazer viagens de reconhecimento deste mar e que tinham viajado a extensão dum mes até lhes faltar a luz e que voltaram sem completar a sua viagem."

"Mais tarde, ordenou o rei ao intérprete de lhes oferecer segurança para a sua partida, de forma a que ficassem com uma boa opinião do rei e das suas acções."

"Tendo terminado estas conversações, retornaram-nos à prisão até ao começo dos ventos ocidentais. Os guerreiros tomaram-nos então e embarcaram-nos, de olhos vendados, para uma viagem calma de três dias e três noites da qual contaram: Desembarcaram-nos numa praia, com as nossas mãos atadas e deixaram-nos ali maltrados até o sol se pôr. Encontrámo-nos indefesos, sem ajuda. Pareceu-nos então ouvir vozes humanas e todos gritámos em conjunto até certos homens aparecerem em nossa frente. Vendo-nos em tal estado miserável desamarram-nos."

"Eles interrogaram-nos, falando a nossa língua e eram da Barbária. Um deles disse-nos: "Vocês sabem a que distância se situa a vossa região?" E nós respondemos: "Não", e ele disse: "Bem, entre nós e a vossa região há um espaço de dois meses. Depois o chefe da aventura disse: "Wasafy!". É assim este local até hoje é chamado Asafy; que é Mersa no fim do Almagreb".

Não devemos confundir esta Ilha dos Carneiros com a já acima referida, que associamos às Feroe, com efeito, as navegações destes muçulmanos aconteceram em mares do Sul e a referência a homens nus, de alta estatura, ajusta-se perfeitamente às descrições dos descendentes Cro-Magnons das Canárias, os Guanches. O arquipélago das Canárias possuía então várias ilhas desabitadas, uma delas seria assim a Ilha dos Carneiros e a ilha habitada e com uma grande cidade seria uma das povoações habitadas das Canárias, já referidas na Relação de Boccacio.

Desconhece-se a data exacta da viagem destes oito moçarabes de Lisboa, mas deverá ter-se efectuado certamente antes da ocupação da cidade por Afonso Henriques, em 1147.

Este historiador e geógrafo muçulmano nasceu em 1100, na cidade de Ceuta. Descendia de uma família hispano-arabe. O seu nome completo era Abu Abd Allah Muhammad Bin Idris Al Ammudi Al Hasani, terá falecido no ano de 1166. A sua obra denominada "Kitab Nuzhat Al-Mushtaq Fikhtiraq Al-Afaq" ( Recreação para aquele que deseja atravessar as terras. Traduzida para o latim sob o nome "Geographia Nubiensis", em Paris, no ano de 1619, em 1749 foi publicada uma tradução em lingua castelhana da autoria de Josef António Conde sob o título: "Description de Espana de Xerif Aledris conocido por el Nubiense", depois destas duas traduções pioneiras, outras, em língua francesa e inglesa, se seguiram.

PERCURSO DOS AVENTUREIROS

Tendo em conta o reduzido número de navegadores a embarcação utilizada seria certamente, minúscula. A indicação dos dias de navegação pode fornecer-nos algumas pistas quanto ao percurso seguido. Os onze dias, a partir de Lisboa, até um mar com fortes correntes e águas de maus cheiros, pode ser o Mar dos Sargaços, como o banco da Islândia, em que os maus cheiros seriam o enxofre proveniente das erupções vulcânicas. Temos de seguida uma viagem de doze dias para sul, até à ilha dos Carneiros, provávelmente São Miguel, conhecida nalguma cartografia como "ilha das Cabras". Retomaram as suas navegações e durante doze dias erraram no Atlântico, findo este prazo desembarcaram numa ilha habitada e cultivada. Na época as únicas ilhas habitadas e cultivadas do Atlântico eram as Canárias, aliás, a duração do percurso seguinte, três dias até à Barbaria (Marrocos) reforça ainda mais esta convicção.

AMULETO NORTE-AFRICANO ACHADO NA ILHA DE SÃO MIGUEL

O historiador Rainer Daehnardt representa numa gravura da sua obra (124) um amuleto norte-africano que teria sido encontrado na ilha de São Miguel, por baixo de uma camada de lava, datável de entre o século VII e o IX. O Professor Barry Fell da "Epigraphic Society" de San Diego chama a atenção para a semelhança deste amuleto com um outro encontrado nas ilhas Canárias. Ambos utilizam a língua árabe, mas em caracteres líbios cartagineses, segundo este epigrafista será este o texto do amuleto açoriano: "De tormentas - isto protege - não há Deus senão Deus - para proteger de navegar fora do rumo - durante a noite - é esta a protecção". A notícia deste achado surgiu num artigo publicado no jornal "Açoriano Oriental", do dia 11 de Abril de 1986.