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INFLUÊNCIA DAS NAVEGAÇÕES CARTAGINESAS NO ATLÂNTICO

Diodoro Siculus, escrevendo no primeiro século depois da era crista, referia uma grande ilha que os Etruscos conheciam, mas que os Cartagineses, os seus descobridores guardavam ciosamente.

MOEDAS CARTAGINESAS NA ILHA AÇORIANA DO CORVO

Humboldt no seu "Examen Critique" refere que no mês de Novembro de 1749, uma tempestade violenta teria abalado as fundações de um edifício parcialmente submerso na ilha do Corvo, quando o mar amainou descobriu-se, por entre as ruínas, um vaso contendo moedas de ouro e cobre. Estas moedas foram levadas para um convento, umas ter-se-iam perdido, mas nove foram preservadas e enviadas ao padre Enrique Flores, em Madrid, que as deu a John Podolyn (82), umas apresentavam a figura de um cavalo por inteiro, outras apresentavam somente a cabeça desse animal. Pelos elementos conhecidos podemos afirmar, com certo grau de certeza, que se tratam de duas moedas fenícias do norte de África, da colónia de Cirene, e de sete moedas cartaginesas.

Alguns, como Conrad Malte-Brun, sugeriram que estas moedas podiam ter sido deixadas nos Açores por navegadores nórdicos ou árabes. Mas, como Humboldt nota com toda a pertinência, isso não confere com o facto de se tratarem exclusivamente de moedas fenícias e cartaginesas, muito mais antigas, nem tão pouco com o facto de, neste lote não constarem nenhumas moedas muçulmanas ou nórdicas, como seria lógico a acreditar nesta teoria. Por outro lado, conhecem-se as expedições regulares que a Fenícia enviava para a costa Atlântica, no comércio do Estanho e do Âmbar, é pois, perfeitamente possível, que uma tempestade tivesse empurrado um desses navios até ao Corvo. Finalmente, embora não seja impossível que moedas cartaginesas de ouro fossem ainda usadas pelos árabes, pelo seu próprio valor intrínseco, bastante mais improvável parece o uso de moedas de cobre, cujo uso só faria sentido para o próprio povo que as havia cunhado. É certo que neste grupo estavam incluídas duas moedas cartaginesas de ouro, mas em minoria clara em relação ao número de moedas de bronze.

A referência a um edificio parcialmente submerso também merece a nossa atenção. As moedas podem ter sido aí guardadas como uma reserva a usar numa próxima passagem dos navios, o que faria especialmente sentido, se não existisse uma presença regular na ilha, o que tendo em vista a sua localização no meio do oceano Atlântico seria perfeitamente natural. Outra explicação possível prende-se com a velha tradição de colocar moedas dentro da estrutura de edificios de modo a assim os proteger de catástrofes. Mas quando assim é, as moedas guardadas são geralmente de baixo valor e nunca de ouro, o que vem reforçar a primeira hipótese acima mencionada.

ESTÁTUAS EQUESTRES

Edrisi escreve que existiam diversas estátuas, a que dá o nome de "Al-Khalidat", feitas de bronze, viradas para ocidente e colocadas sobre pedestais. A tradição afirmava existirem seis estátuas destas, estando a mais próxima em Cadiz. Uma obra de S. Morewood ("Philosophic and Stastical History of Inventions and Customs", Dublin, 1838) refere a existência de uma delas na ilha de São Miguel. Por outro lado, Manuel de Faria y Sousa na sua "Historia del Reyno de Portugal", inclui a seguinte passagem, traduzida para o inglês por Babcock: "In the Azores, on the summit of a mountain which is called the mountain of the Crow, they found the statue of a man mounted on a horse without saddle, his head uncovered, the left hand resting on the horse, the right extended toward the west. The whole was mounted on a pedestal which was of the same kind of stone as the statue. Underneath some unknown characters were carved in the rock" (77).

Esta referência a caracteres recorda uma descoberta numa gruta da ilha de São Miguel, durante a época dos Descobrimentos portugueses, descoberta que nos é relatada por Thevet (78). Um descendente mourisco ou judaico parece ter reconhecido nesta inscrição caracteres hebraicos, mas não foi capaz de a ler, alguns supuseram tratar-se de caracteres fenícios.

É sabido que os cartagineses erigiram diversas colunas comemorativas, por outro lado, o cavalo está presente em quase todas as suas cunhagens.

Humboldt, contudo, não crê na realidade desta tradição, julga antes que terá tido origem num rochedo cuja forma natural terá sugerido a lenda, o que não seria certamente inaudito. E, de facto, esta tese é reforçada na obra "A Trip to the Azores" de Borges de F. Henriques: "Another natural curiosity which has been defaced by the weather and the bad taste of visitors is a rock resembling a horseman with the right arm extended to the westward as if pointing the way to the new world. Some insular writers deny the existance of this rock".

O PÉRIPLO DE HANÃO

O muito divulgado "Périplo de Hanão" (126) relata uma viagem de colonização até à costa atlântica do Marrocos, embora os historiadores tenham opiniões diversas quanto ao ponto mais a sul alcançado, permanece a certeza da sua realização. Precisamente a última parte desse poema, incluí uma referência que parece indicar uma visita às ilhas de Fernão Pó e do Príncipe:

"Na parte mais profunda, encontrava-se uma ilha, semelhante à precedente, contendo um lago; neste, havia uma outra ilha (Fernão Pó e Príncipe), cheia de homens selvagens. As mulheres, com o corpo coberto de pelos, eram mais numerosas; os intérpretes chamavam-lhes "hapax" (que alguns acreditam tratar-se de gorilas). Tendo-os perseguido, não conseguimos capturar homens, pois fugiam todos, escalando locais escarpados e defendendo-se com pedras, mas apanhamos os que as levavam, não queriam segui-los. Tendo-as morto em consequência, esfolámo-las e levamos as suas peles para Cartago. Na verdade, tendo-nos faltado os víveres, não navegámos mais para a frente."

PORQUE NÃO EXISTEM PROVAS INQUESTIONÁVEIS ?

Embora existam diversos indícios que apontam para a presença de navegadores fenícios e cartagineses no arquipélago açoriano, não existe nenhuma prova arqueológica que o demonstre irrefutávelmente, conforme já vimos. Esta ausência poderá dever-se a um fenómeno comum ao arquipélago açoriano, e que é referido na já citada obra de F. Henriques: "In many of the islands, but especially in Flores, there are vestiges clearly indicating that formely as well as lately parts of

the island have sunk or rather disappeared in the sea." Cita, inclusivamente, o afundamente de terras ocorrido no Verão de 1847. Por outro lado, nunca deve ter existido uma colonização firme no arquipélago, assim, muitos poucos edifícios de pedra devem ter existido, além daquele já referido, uma vez que construções de madeira serviram muito melhor para as curtas estadias desses possíveis navegadores fenícios.

Como vimos mais acima, a designação de "ilha das Cabras" foi atribuída em diversos mapas a ilha de São Miguel. Julgamos ter reunido provas suficientes para tomar como quase certa a chegada de navegadores fenícios ao arquipélago açoriano, se assim efectivamente sucedeu, e devido ao problema de abastecimentos de carne fresca que preocupava todos os marinheiros da antiguidade é muito provável que aí tivessem deixado cabras, para os alimentarem em futuras passagens, assim teria nascido a denominação: "ilha das Cabras". Contudo, a documentação da época da redescoberta do arquipélago menciona que o único mamífero que aí habitava era o morcego, não mencionando nenhuma cabra, as quais poderiam ter sido dizimadas por uma qualquer peste ou doença.