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ILHAS AFORTUNADAS

Plutarco, ao contar a vida de Sertório, não deixou de se referir ao que um marinheiro hispânico contava sobre umas terras longínquas, perto de África, onde os ventos são calmos e as chuvas moderadas caem do céu como uma divina benção.

De Aristóteles :

" 84:Dizem que no mar situada para lá das Colunas de Hercules foi descoberta pelos cartagineses uma ilha com madeiras de todos os géneros e rios navegáveis, famosa por todas as outras espécies de frutos e à distância de alguns dias de viagem; dado que os Cartagineses a visitavam muitas vezesdevido à sua prosperidade e muitos viviam mesmo lá, o seu chefe anunciou que puniria com a morte todos os que se atrevessem a navegar naquelas paragens e todos os habitantes foram massacrados para que não pudessem contar a história e para que uma multidão não alcançasse a ilha tomando posse do local e privando os Cartagineses da prosperidade de que desfrutavam.

136:Dizem que os Fenícios que habitam a região chamada Gades navegaram para lá das Colunas de Hercules arrastados por um temporal que durou três dias chegaram a algumas ilhas desertas cheias de matagal e de algas, que não se encontravam submersas na altura da maré baixa mas eram cobertas quando maré subir, e em que se encontrou uma porção de atuns de tamanho e peso inacreditáveis quando trazidos para a praia; apanharam-nos e colocaram-nos em vasos que levaram para Cartago. Não os exportaram mas consomem-no devido ao seu valor como alimento."

A descoberta pelos cartagineses pode aplicar-se à Madeira, que segundo Boxer era usada por posto de abastecimento das navegações Púnicas na costa ocidental africana. A vegetação luxuriante concorda com as narrações dos primeiros descobridores oficiais da ilha, que dizem que as árvores desciam quase até à praia. Quanto às ilhas se ficavam cobertas na maré baixa conferem com o que se passa nalguns dos pequenos ilhéus das Desertas.

 

"Descrição do Mundo" de Pompónio Mela :

"Em frente (do monte Atlas) ficam as Ilhas Afortunadas, em que o solo produz abundante quantidade de frutos que se renovam incessantemente, o que faz com que os nativos passem os seus dias calmamente e dentro de uma maior felicidade do que os que habitam cidades magníficas. Este local é notório pela existência de duas nascentes caracterizadas por um pormenor especial: a água de uma faz com que os que a bebem morram a rir, ao passo que a outra cura todos os males."

 

"Vidas Paralelas", de Plutarco:

"Sertorius, VII: (Sertório) escapou com dificuldade e depois de cessar o vento esforçou-se por atingir determinadas ilhas desertas existentes naquelas paragens, e depois de aí passar uma noite, lançou-se novamente ao mar, atravessou o estreito de Gades e avançou mantendo a linha costeira espanhola à direita e foi ter um pouco acima da foz do rio Betis, no local em que desagua no mar Atlântico e dá o seu nome aquela região de Espanha. Aqui encontrou alguns marinheiros chegados recentemente das ilhas Atlânticas, que eram duas e separadas uma da outra por um estreito canal distando aproximadamente 2.011 Km da costa de África. Chamam-se Ilhas Afortunadas; raramente há chuva e quando tal acontece abrange curtos períodos; na maior parte do tempo são agitadas por brisas suaves e pelo orvalho que enriquece o solo não só para a plantação como tão abundantemente fecundo que produz frutos suficientes para alimentar os habitantes que podem desfrutar de tudo sem qualquer problema ou labor. As estações do ano são temperadas e as transições de umas para as outras são suaves... que mesmo entre os bárbaros se mantem a firme crença de que é aquele o local dos Eleitos e que se trata dos Campos Elísios cantados por Homero."

 

A referência à raridade das chuvas é pouco comum, pois a maioria das descrições sobre as Ilhas Afortunadas indicam-nas como sendo um Paraíso terreal. Este elemento, conjugado com o pormenor de serem habitadas enquadra-as perfeitamente dentro do âmbito das Canárias.

ILHAS AFORTUNADAS / TANATUS

Parece estranho que os clássicos tenham localizado um lugar tão idílico num oceano que sempre foi associado ao mundo dos mortos, e isto já sucedia com o Egipto Faraónico. Esta associação sobreviveu ao cristianismo. Com efeito, o apologista cristão Lactâncio defendia que Deus tinha dividido a terra em duas partes: este e oeste, tendo sido o Este atribuído a Deus e aos seus representantes, "mas o Oeste é entregue às mentes depravadas [o diabo] porque escondia a luz, porque fazia os homens morrer e perecer nos seus pecados." (21)

Devido a associação entre o oeste e a Morte era de esperar que existissem ilhas dos mortos neste oceano. E de facto existe uma ilha que concorda com esta associação na visão de Vincent H. Cassidy, trata-se de uma ilha mencionada por Solinus, um autor romano do século III. Esta é a sua primeira referência, na sua "Colecção de Coisas Memoráveis", descreve uma ilha chamada "Tanatus" (22). Cassidy julga encontrar esta ilha numa pequena ilha situada ao largo da Bretanha e que hodiernamente enverga o nome de "Thanet", contudo esta identificação peca por ser excessivamente simplista. De acordo com Solinus esta ilha, apesar do seu nome, possuía férteis campos de trigo, e era maravilhosamente livre daquela praga que geralmente faz a matéria dos pesadelos dos camponeses, as serpentes. Com base neste nome, e nesta abundância, poderá estar a associação depois estabelecida pelos autores mais tardios entre as "Ilhas Afortunadas" e esta "Ilha dos Mortos".

Esta associação é clara no historiador bizantino Procopius, o qual coloca perto da Hispânia a ilha de Brittia onde "é impossível a um homem sobreviver ... mesmo por meia hora" (24). As almas dos mortos eram trazidas até esta ilha, sua última morada pelos pescadores das costas continentais próximas, que sob encantamento carregavam os seus barcos com esses tétricos passageiros e os levavam, de noite, para Brittia. A passagem demorava apenas uma hora.

O nome Tanatus é mudado para Thanatos pela primeira vez por Isidoro de Sevilha. Também ele a coloca perto da Bretanha. Isidoro, no seu desejo de tudo explicar e catalogar, justifica o nome com a morte das serpentes que assolariam normalmente os férteis campos de cereais da ilha, por isso escreveu: "é chamada Thanatos pela morte das serpentes" (25)

Martin Behaim identifica as Ilhas de Cabo Verde com as ilhas Afortunadas (40). Por seu lado, Pedro Martyr associa as Afortunadas com as Canárias e na primeira Década de Ascania Sforza surge o seguinte texto: "sunt tamen qui eas velint esse Fortunatas quas Capitis Viridis insulas Portugallenses appelant" (41). Aliás, o mesmo Ascania Sforza mais adiante identifica o arquipélago com um outro ao escrever: "Credimus has insulas esse Hesperides".