Make your own free website on Tripod.com

ENGROELÂNDIA, ESTOTILÂNDIA E ICÁRIA

Parte do Mapa-mundi de Ortelius de 1570 mostrando diversas ilhas lendárias, como a Ilha das Sete Cidades, São Brandão, Brazil, Estotilândia, Drogio, Ilha dos Demónios, entre outras.

 

 

Em 1380, um marinheiro Veneziano, Niccolo Zeno, a serviço do senhor das Órcades liberta as Feroe dos piratas que as infestavam. Depois passa a Oeste e aí começam as suas viagens. Nalgumas ilhotas primeiro e, a 700 Km da Islândia, onde passou o Inverno, Niccolo Zeno e o seu irmão António atingem uma grande terra, a Engroelândia. Aí encontram, não gelos, mas águas tépidas que banham um fiorde e pequenas ilhas. Numa destas, um mosteiro maravilhoso, no qual os monges possuem celas aquecidas e cultivam frutos e legumes nos seus jardins irrigados por uma nascente vulcânica. Na baía, navegam pescadores com os seus barcos de pele de foca. Mais tarde, na aldeia onde habitam estes pescadores explicam-lhes que navios trazem da Noruega madeira e tecidos. Um velho marinheiro fala aos Zeno de um país, a mil milhas dali, a Estotilândia, no qual naufragou: florestas, pastagens e habitantes que trabalham o ferro, e mesmo o ouro.

Um paraíso que Niccolo Zeno nunca alcançará, porque vem a falecer. O tal senhor das Órcades, Saint-Clair assim como António Zeno, irmão de Niccolo, fazem-se ao mar à procura dessa Estotilândia de sonho. Contrariados pelas tempestades, sem astros por onde se possam guiar, errarão de vaga em vaga até atingir uma ilha na qual viam um vale. Repudiados pelos insulares, apenas conseguem saber o nome da Ilha - Icária - e regressam às Órcades. António Zeno volta para Veneza e não tornará mais a sair da cidade da laguna.

Mapa do Bispo Thorlaksson da Groenlândia de 1606 mostrando Estotilândia como uma parte da América do Norte.

O LIVRO DE ZENO

No ano de 1558 foi impresso por Marcolino em Veneza um livro dando conta da "Descoberta das ilhas de Frislândia, Eslanda, Engronelândia, Estotilândia e Icária, feita pelos dois irmãos da família Zeno, Senhor Nicolo, o Cavaleiro e Senhor António." (73) Algumas das ilhas mencionadas no livro foram omitidas no título, e a palavra "descoberta" foi certamente empregue no sentido mais lato, uma vez que a Groenlândia (Engronelândia) possuía uma ocupação nórdica já largamente secular, e o nome dado às Shetland (Eslanda, Estland ou Estiland) era um dos nomes, embora pouco comum, da Grã-Bretanha, o que não quer dizer necessariamente que se trate das Ilhas Britânicas, uma vez que, conforme veremos, existem dados que fazem crer numa associação com a costa norte-americana.

O nome do autor não surge em nenhum ponto do livro, mas poderá bem ter sido um dos descendentes dos dois aventureiros. Discutiu-se muito se o livro devia ser tomado como um embuste ou se, pelo contrário, reflectia informações reais. O compilador da obra escreve a dado passo: "The sailing chart which I find, I still have among our family antiquities and, though it is rotten with age, I have succeeded with it tolerably well."

PRIMEIRO USO DOS NOMES "ESTOTILÂNDIA" E "DROGIO"

Estes dois nomes surgem nesta obra numa história dentro da história, de um pescador, reportando-a ao senhor das Órcades que os Zeno terão servido. Deste trecho retiramos o seguinte extracto: "Six and twenty years ago four fishing boats put out to sea, and, encountering a heavy storm, were driven over the sea in utter helpessness for many days; when at lenght, the tempest abating, they discovered an island called Estotiland, lying to the westwards above one thousand miles from Frislanda. One of the boats was wrecked, and six men that were in it were taken by the inhabitants, and brought into a fair and populous city, where the king of the place sent for many interpreters, but there were none could be found that understood the language of the fisherman, except one that spoke Latin, and who had also been cast by chance upon the same island (...) They (...) remained five years on the island, and learned the language. One of them in particular visited different parts of the island, and reports that it is a very rich country, abounding in all good things. It is a little\ smaller than Iceland, but more fertile. (...)

"The inhabitants are a very intelligent people, and possess all the arts like ourselves; and it is to bebelieved that in time past they have had intercourse with our people, for he said that he saw Latin books in the king's library, which they at this present time do not understand. They have their own language and letters. They have all kinds of metals, but especially they abound with gold. Their foreign intercourse is with Greenland, whence they import furs, brimstone and pitch (...) They have woods of immense extent. They make their buildings with walls, and there are many towns and villages. They make small boats and sail them, but they have not loadstone, nor do they know the north by the compass. For this reason these fishermen were held in great estimation, insomuch that the king sent them with twelve boats to the southwards to a country which they call Drogio; but in their voyage they had such contrary weather that they were in fear for their lives."

"They were taken into the country and the greater number of them were eaten by the savages (...) But as that fisherman and his remaining companions were able to show them the way of taking fish with nets, their lives were saved. (...) During the space of thirteen years that he dwelt in those parts, he says that he was sent in this manner to more than five-and-twenty chiefs. (...) He says that it is a very great country, and, as it were, a new world; the people are very rude and uncultivated, for they all go naked and suffer cruelly from the cold, nor have they the sense to clothe themselves with the skins of the animals wich they take in hunting. They have no kind of metal. They live by hunting, and carry lances of wood, sharpened at the point. They have bows, the strings of which are made of beast's skins." (74)

IMPLICAÇÕES GEOGRÁFICAS DA NARRATIVA

A Estotilândia já tem sido localizada numa diversidade de lugares, entre os quais as ilhas Britânicas. Mas a descrição de uma região a oeste das ilhas Faroe só pode tratar-se de uma região da América do Norte.

A descrição do território como uma ilha, aproximadamente com as mesmas dimensões da Islândia mas mais fértil, com um interior montanhoso, grandes florestas (como a Markland da tradição nórdica), indicam claramente a península do Labrador. Reforçando esta ideia temos um mapa francês datado de 1668 conservado no "United States National Museum" que apresenta a região a sudeste da Baía de Hudson com uma inscrição designando-a como Estotilândia para os dinamarqueses, Nouvelle Bretagne (New Britain) pelos ingleses, Canada Septentrionale para os franceses, e Labrador para os portugueses.

A Estotilândia, seria assim o Labrador, ocupado ainda no século XIV pelos últimos descendentes dos colonos Vikings. Por outro lado, o explorador polar Clements Markham defende que a Icária, e após ter reconstruido com minúncia a viagem descrita na narração, seria a costa da Irlanda, mais precisamente, o Condado de Kerri.

Mapa dos irmaõs Zeno de 1558, mostrando Frisland, Estotilândia, Icária e Drogio.

 

CONJECTURAS QUANTO À PALAVRA "ESTOTILÂNDIA"

O nome parece ter mais ressonâncias italianas que escandinavas. "East-out-land" já foi sugerido, mas não se compreende porque italianos ou nórdicos usariam palavras inglesas. Uma outra explicação sugere o emprego das primeiras três sílabas da frase "esto fidelis usque ad mortem", resultando "Estofi" a que se acrescentaria "land", mas mais uma vez fica por explicar o uso de palavras inglesas. Talvez "Estotiland" como uma derivação de "Escociland" (Escócia) seja uma melhor hipótese. Existe uma outra hipótese, também ela bastante forte, a de que "Estotiland" seja uma modificação a partir de "Estilanda" ou "Esthlanda", uma denominação por vezes atribuída às ilhas Shetland, por exemplo no mapa de Prunes, de 1553. Por sua vez, Ortelius, ao atribuir o descobrimento do Novo Mundo aos nórdicos, parece identificar a Estotilândia com a Vinlândia. (75)